As pioneiras conexões entre fotografia e moda

[12.jan.2010]

Gilda de Mello e Souza, em foto do músico João Gilberto, 1968

Gilda de Mello e Souza, em foto do músico João Gilberto, 1968

A revista Piauí deste mês traz um texto bastante singular – “A menina e a mãe dela” – assinado por Ana Luisa Escorel, que rememora sua infância, estabelece relações interessantes e desencadeia conexões diversas para nossas reflexões sobre a fotografia. Ana Luisa é filha de Antonio Cândido e Gilda de Mello e Souza (1919 – 2005), intelectuais, ensaístas, críticos e professores da USP, que marcaram gerações. Também é casada com Lauro Escorel, um dos grandes fotógrafos do cinema brasileiro.

Ana Luisa nesse delicioso ensaio, repleto de imagens mentais, relembra parte de sua infância, traz o cotidiano da relação familiar para seu texto e comenta a erudição e a inteligência das relações sociais e acadêmicas de seus pais. Entre várias e oportunas observações, Ana Luisa afirma ao comentar a paixão de sua mãe pelas roupas: “pensando bem, ela deve ter sido um dos primeiros intelectuais, no Brasil, a valorizar a fotografia como fonte de informação”.

Imediatamente fui tomado pela lembrança do livro O espírito das roupas – a moda no século dezenove, editado em 1987, resultado da tese de doutoramento de Gilda de Mello e Souza – A Moda no Século XIX – defendida em 1950 na USP sob orientação de Roger Bastide, do qual foi assistente por mais de uma década. Também foi aluna e colaboradora de Claude Lévi-Strauss.

Sua tese, publicada inicialmente em 1952, pela Revista do Museu Paulista, e agora pela Companhia das Letras, enfatiza a importância cultural da moda do século XIX ao relacioná-la com outras manifestações, particularmente a literatura, a pintura, a gravura e a fotografia. Neste sentido, podemos considerá-lo como um ensaio pioneiro no Brasil ao tratar a fotografia como informação, trazendo-a para o campo de análise da cultura associado à moda. Não podemos esquecer que Roland Barthes só publicou seu ensaio clássico Système de la Mode, em 1967.

Gilda de Mello e Souza, de Araraquara, mudou-se para São Paulo a fim de cursar a recém inaugurada Faculdade de Filosofia da USP, tornou-se uma das primeiras mulheres a freqüentar o programa e estabeleceu-se na casa de seu primo, o escritor Mario de Andrade, outro importante intelectual que assumiu a fotografia como linguagem quando realizou suas viagens Brasil afora. No Instituto de Estudos Brasileiros da USP (www.ieb.usp.br) é possível acessarmos o arquivo do escritor e nos depararmos com inúmeros exemplares de revistas internacionais de fotografia que ele assinou por quase duas décadas.

O Espírito das Roupas

O Espírito das Roupas

Recomendamos a leitura de O Espírito das Roupas, conceito extraído a partir da epígrafe da tese assinada por Thomas Carlyle. A divisão dos capítulos é perfeita e Gilda vai avançando em sua análise à medida que se articulam as diferentes manifestações artísticas com a moda, herdeira direta da revolução industrial potencializada na primeira metade do século XIX e que vai alcançar a notoriedade e independência juntamente com outras conquistas da modernidade.

Gilda, em grande parte de seu trabalho, analisa imagens de seu próprio álbum de família, fazendeiros bem sucedidos da região de Araraquara até a crise de 1929. É através de álbuns familiares e da sua intimidade com aqueles personagens fotografados é que ela amplia conceitualmente o valor da imagem, estabelece boas relações entre o retratado e a pose, a roupa e os objetos de cena, o cenário e a composição. Sem dúvida, uma análise pioneira da imagem fotográfica bem como sua valorização enquanto documento e informação.

Com o olhar de hoje, o único senão para este trabalho seria a falta de identificação dos fotógrafos, e a não localização dos seus ateliês. Mas isso não empobrece a análise uma vez que a maior preocupação de Gilda de Mello e Souza foi entender a moda como produto cultural da modernidade. Isso fica evidente nas imagens selecionadas para a edição do livro que valorizam o gesto, a atitude e a roupa dos brasileiros fixados nas fotografias. Uma análise vigorosa que determina a importância deste trabalho para todos aqueles que se interessam perceber o mundo como uma trama que se constrói através de múltiplos processos colaborativos e distintas conexões entre as linguagens.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

8 Respostas

  1. Grande Rubens…bom começar o ano com textos assim! Feliz 2010 ao Icônica!

  2. Prof. Rubens,

    Lindo seu texto. Esse livro é um dos mais manuseados da minha biblioteca, foi fundamental para minha tese. Desde então, vejo a moda nas imagens como meio de análise de forma mais coesa e objetiva. O livro e Gilda de Mello e Souza são emblemáticos. O pensamento crítico dela também a faz uma das mais sofisticadas e pertinentes autoras. Há pouco, foi lançado Exercícios de Leitura, no qual encontramos reflexões críticas soberbas.

    Abraços.

  3. Oi Professor,

    que bom esse post!

    Na mesma Piauí tem o perfil de Artur, nosso prodigioso matemático, feito por João Moreira Salles:

    Artur prefere fazer conta de cabeça – e por conta não se entenda tábuas de multiplicação, mas construção de ideias, geografias mentais com vales, picos, dobras, abismos, descontinuidades.”Papel é força bruta”.

  4. Salve Pio/ Salve a Piauí:
    Além da matéria sobre o Artur, “nosso matemático”, ainda tem o ensaio sobre o artista Nuno Ramos, esclarecedor. Que revista no Brasil tem esse conjunto de informações bem escritas e com “gosto de quero mais”?

  5. Caro Rubens,

    Ao ler este artigo me veio a mente a bela exposição que fui no IMS final do ano passado sobre a vida e obra de Otto Stapakoff, falecido há quase 1 ano em São Paulo e que deixou um legado imortantíssimo para a fotografia publicitária brasiliera e em particular como precursor da fotografia de moda no Brasil. Voltando de um curso de fotografia nos EUA, se celebrizou pelas primeiras fotos de moda publicitária, e pelas imagens do cotidiano dos bares cariocas de bossa nova aos primeiros pilares de Brasília. Já na década de 60 fotografava algumas das principais celebridades da época de ouro e era conhecido por assinar belos editoriais de moda nas principais revistas gringas lá fora. Com sua Leica clicava rostos e cenas do cotidiano que estão eternizadas no livro Sequências: Otto Stapakoff lançado pelo IMS e com belíssimo prefácio de Bob Wolfeson.

    Abraço
    Sérgio

  6. Rubens,

    Parabéns pelo texto.
    Como sabe, minha ligação com a fotografia de moda é longa, e entendê-la como produto da cultura é sempre necessário.
    Longa vida ao Icônica!
    Clicio

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