As formas primitivas de Apichatpong Weerasethakul

[27.maio.2012]

O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2010, com o filme Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas. É uma narrativa repleta de fantasia sobre um homem que, com a proximidade da morte, reencontra pessoas as que ama, e também lugares, memórias e imagens ligadas a seu passado e a suas outras vidas. Neste ano, Apichatpong retorna ao festival apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o documentário Mekong Hotel e o curta Ashes, ambos de 2012. Este último é o resultado de uma experiência realizada com uma câmera LomoKino, que faz rodar um filme 35mm por meio de uma manivela e que imprime ao trabalho um ar de foto-filme.

Aqui vai um fragmento, o curta pode ser visto na íntegra (20 min.) no site Mubi.

Os filmes de Apichatpong são fáceis de ver quando nos rendemos à plasticidade das narrativas, mas são difíceis de entender quando não resistimos à ansiedade de explicar o que vemos. Sobretudo depois do êxito de Tio Boonmee em Cannes, seus trabalhos passaram a mobilizar debates intensos que ora reduzem sua obra a uma noção vaga e anacrônica de “surrealismo”, ora tentam listar o significado de cada cena e de cada personagem. Há certamente uma medida mais adequada entre a constatação do non-sense e a dicionarização dos símbolos.

Quando comenta suas influências, Apichatpong não é afeito a demonstrações de erudição. Ele assume trabalhar de modo bastante livre com  suas memórias, aceita as descontinuidades que elas impõem e não distingue entre aquilo que absorveu da tradição tailandesa e os elementos da cultura de massa: a fotografia, a televisão e a cinema. Algumas referências são evidentes. No momento em que o filho Boonmee explica que sua desaparição e sua metamorfose em um “macaco-fantasma” se desdobrou da obsessão gerada por uma fotografia, vários comentadores reconhecem uma citação a Blow-up: os personagens dos dois filmes são igualmente enredados e transformados por uma fantasia construída pela imagem.

Cena de Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966)

A fotografia reaparece no filme quando, pouco antes de morrer, Boonmee narra um sonho sobre uma viagem ao futuro, onde se vê perseguido por homens que querem fazê-lo desaparecer através de um artifício cinematográfico . As fotos que vemos não ilustram exatamente sua fala, são provavelmente sobra de um outro projeto, a instalação “Primitive”, mas traduzem sentimentos ambíguos de aprisionamento e liberdade, de medo e desejo, como num sonho, como na experiência da morte que se aproxima. Muito já se especulou sobre o personagem do macaco. É suficiente pensar que, também nessa “próxima vida”, Boonmee é confrontado com elementos de uma existência arcaica. Uma das últimas fotografias dessa série parece remeter novamente a Blow-up, uma situação em que a fotografia constrói uma relação de prazer e de submissão.

Imagens da instalação "Primitive" (2009).

Cena de Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966).

Em Ashes, Apichatpong apenas joga com as sequências de imagens, não chega a construir uma narrativa. O filme é – assim como a memória – uma colagem de cenas: um passeio por uma vila com um cão, uma mulher pintando as unhas, protestos contra o “artigo 112” (da lei que define o crime de “Lesa-Majestade” e que inibe a liberdade de expressão na Tailândia), o cineasta que tenta apreender por meio de desenhos as formas e as cores dos sonhos, os fogos de artifício de uma festividade que criam abstrações (como já se via no filme Fantasmas de Nabua, de  2009, que também integra o projeto “Primitive”).

Frame de Ashes

Essas imagens nos chegam num estado rústico. Juliano Gomes, num excelente artigo sobre o diretor, sugere que também Tio Boonmee é parte do projeto “Primitive”, em que Apichatpong assume todo seu fascínio pela imagem: “o filme resgata esse deslumbramento primitivo, muito anterior ao cinema, esse prazer primeiro da dilatação da pupila, fascínio ancestral que o fogo, os refletores, os raios, os LEDS e o sol, e todas as formas de pulsação da luz nunca deixarão de exercer sobre nós”.

Com a LomoKino, Apichatpong retorna a uma imagem cinematográfica arcaica, assim como Boonmee retorna à floresta para reencontrar as entidades que compõe as histórias de suas vidas. Essa instância obscura que recebe a qualificação de “primitiva” não representa qualquer simplicidade. Muito pelo contrário, ela é o lugar em que o potencial das coisas pode ser reconhecido de modo mais evidente. Neste novo projeto, a montagem não esconde os saltos que o cinema opera, assim como a ligação de cada foto com a seguinte não esconde o esforço para criar a ilusão de movimento.

É na escuridão da floresta que Boonmee se encontrará com seus fantasmas e suas outras vidas. Em Asches, é também na escuridão que o cineasta falará da possibilidade de reter a memória de um sonho. Só a penumbra permite enxergar as luzes mais sutis, assim como é o esquecimento que confere um contorno à memória. E Apichatpong Weerasethakul é o nome impronunciável de um diretor cuja assinatura se torna cada vez mais legível nas imagens.

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Ashes foi uma dica de um aluno de cinema da FAAP, Nicolas Zetune, a quem agradeço.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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