Arte, mercado e especulação

[29.out.2012]

Diante da dificuldade de justificar o valor que algumas obras contemporâneas alcançam em leilões internacionais, parece evidente a existência de uma bolha especulativa. Antes de seguir, vale pensar um pouco o sentido do que chamamos de especulação.

Há mais de um século, a economia não trata necessariamente da circulação de bens, mas de representações que podem ser lastreadas por uma riqueza potencial, aquela que se espera gerar a partir de uma capacidade produtiva demonstrada. No capitalismo tardio (ou pós-moderno, ou pós-industrial, ou seja lá o nome que se queira dar) essa virtualização da economia se radicaliza. O que move o mercado continua sendo uma promessa, mas agora sustentada pela própria aposta daqueles que aderem a ela.

Esse é portanto um jogo tautológico, autorreferente: o preço sobe porque estão apostando, cai porque porque param de apostar, sem a necessidade de justificativas exteriores ao jogo. No final das contas, o que se deve garantir não é a potencialidade da riqueza, mas a fluência da circulação das representações: está tudo bem, desde que ela não seja interrompida.

A especulação – o efeito do espelho – existe quando os movimentos de um mercado refletem a si mesmos. Falamos em bolha porque a valorização dessas representações é um tanto artificial: quando um incidente – igualmente especulativo, independente do significado que tenha fora do jogo – perturba essa fluência, a circulação emperra e somos lembrados de que o que temos na mão é algo vazio, sem lastro. Em princípio, o especulador não precisa entender aquilo que compra, e tanto faz se se trata de imóveis, jogadores de futebol ou fotografias. Mas é bem verdade que a arte toca-lhe também a vaidade e, nesse desejo de tornar visível o objeto de seu investimento, persiste alguma esperança.

A obra de arte parece ser um produto ideal para essa economia radicalmente virtualizada porque ela é, por sua própria natureza, uma representação apoiada em valores intangíveis, e não há parâmetros para objetivá-los. Ninguém hoje se perguntaria para que serve a obra de arte, que facilidades ela traz para a vida, que doutrina pretende disseminar ou se ainda é capaz de salvar as nossas almas. Ela tem uma razão em si mesma que podemos sempre discutir ou questionar. Mas a Estética, em nome da autonomia do objeto a que está dedicada, é incapaz de criar parâmetros para pensar o valor mercantil de uma obra de arte. Por isso, o mercado se sente particularmente livre para colocá-la em seu jogo.

Certa vez, Robert Morris vendeu uma de suas obras ao arquiteto Philip Johnson, que não lhe pagou no prazo combinado. Ironizando a possibilidade de criar artifícios para traduzir valores estéticos em valor de mercado, ele registrou em 1963, em um tabelião, um documento escrito em prolixa linguagem jurídica:

Declaração de Despojamento Estético – O abaixo assinado Robert Morris, sendo o realizador da construção em metal intitulada Litanies, descrita na Prova A anexa, por estas palavras retira da referida construção toda qualidade e todo conteúdo estéticos e declara que desta data em diante a mesma não possui tais qualidades e conteúdo. 5 de novembro de 1963

Se documentos, planilhas e certificados são artifícios estranhos ao universo estético, eles compõem um protocolo muito efetivo no mercado. Vale dizer que esse documento foi comprado pelo mesmo arquiteto, e pertence hoje à coleção do MoMA.

Robert Morris, Documento, 1963

No campo da fotografia, um caso que tem particularmente nos impressionado é o de Andreas Gursky. Com uma dezena de obras que alcançaram em dólares a casa dos sete dígitos, é dele a fotografia com o maior preço alcançado num leilão de arte, vendida em 2011 por 4,38 milhões de dólares.

Andreas Gursky, Rhein II, 1999

Surpreende particularmente o fato de um fotógrafo vivo e relativamente jovem superar figuras como a dos clássicos, Atget, Man Ray, Walker Evans, Cartier-Bresson etc. Mas o fato é que Gursky está situado no mercado da arte contemporânea, não no da fotografia. Os parâmetros são distintos e, de algum modo, a arte contemporânea se beneficia de certa falta de distanciamento. A possibilidade de regular o preço pela consolidação histórica de um artista é uma âncora que esse mercado se dá ao luxo de dispensar.

Nesse mercado, vemos que o preço de Gursky ainda está um tanto abaixo daquele atingido por outros artistas vivos. No caso da pintura, o recorde pertence a uma obra de Gerard Richter, que alcançou 34 milhões de dólares num leilão recente. Como em todo mercado especulativo, a explicação para essas cifras é ainda tautológica: um artista é valorizado pela disposição do mercado em disputar suas obras; por sua vez, essa disposição é incrementada pela sua valorização de suas obras.

Brasil

O crescimento da quantidade de galerias de arte no Brasil é visível a olho nu, mas essas cifras são para nós uma realidade estranha e distante.  Dados publicados pela revista Select apontam nos dois últimos anos um crescimento de 44% num volume de negócios que ainda é bastante dependente de compradores estrangeiros. Dentre as galerias pesquisadas, a média de preços das obras mais caras é de R$ 540 mil. Portanto, ao contrário da bolha que se anuncia no mercado internacional, nossas galerias ainda têm espaço para crescer.

Mas temos aqui nossos próprios e humildes sintomas decorrentes do aquecimento artificial do mercado. No Brasil, arte contemporânea ainda é assunto de especialistas: seu público é formado essencialmente de artistas, curadores, críticos, galeristas, colecionadores, pesquisadores, o que significa que o circuito se define por uma espécie de autofagia. Apesar dos números tímidos, o desejo de constituir um mercado muito antes de formar um público pode também representar uma espécie de bolha, em termos relativos, tão problemática quanto aquela que se caracteriza por preços astronômicos.

Em Nova York, fiquei surpreso com edifícios comerciais no badalado Meatpacking dedicados exclusivamente às galerias de arte. São, na verdade, escritórios de negociação: chegar lá com a expectativa de ver exposições ou de pensar a arte pode ser uma experiência muito frustrante. Esse pragmatismo seria precipitado para o Brasil, significaria queimar etapas. Lá, enquanto um Gerhard Richter é negociado num desses escritórios, uma dezena de suas obras disputa a atenção do público nos museus da cidade.

Diante da falta de parâmetros para julgar o valor mercantil da obra de arte, há algo que deveria lastrear minimamente a valorização almejada pelo contexto brasileiro: um olhar mais efetivo sobre as obras. Ou seja, a possibilidade de que, antes de ser negociada, ela faça sentido num circulo um pouco maior do que o dos especialistas. Difícil imaginar a construção de um mercado brasileiro para a arte sem a mínima afirmação cultural daquilo que se quer negociar. Por isso, mesmo que não seja essa sua função específica, cabe também ao mercado permanecer em diálogo com curadores, educadores, críticos, historiadores, para atuar de maneira mais firme na formação desse olhar.

Não é preciso assumir uma atitude purista. Num mundo em que todas as trocas são mediadas pelo capital, não faz sentido demonizar a vontade de estabelecer um mercado para a arte. Não se trata, portanto, de lutar “contra”, mas “por” um mercado menos alheio ao papel cultural da arte. Para usar uma termo em voga, é uma questão de “sustentabilidade” dos investimentos que se deseja alcançar.

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Ben Lewis, com o mesmo cinismo que lhe tornou conhecido na série Art Safari, realizou para a BBC o documentário “The Great Contemporary Art Bubble Trailer Documentary”. Mais pela ironia inteligente do que pelas conclusões, vale a pena conferir (a versão integral pode ser encontrada na internet).

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

3 Respostas

  1. Olá Ronald, tema polêmico e indispensável.
    Onde posso encontrar na integra o documentário The Great Contemporary Art Bubble? Fiquei interessado.
    Abs,
    Péricles

  2. Oi Ronaldo,

    Seu texto é muito pertinente e oportuno.
    Os mecanismos em atuação no mercado de arte são derivados de maneira muito próxima daqueles praticados no mercado financeiro – estes tiveram uma ótima descrição no documentário “Trabalho Interno” (http://www.imdb.com/title/tt1645089).

    Em breve artigo recente, Sarah Thornton também comenta alguns destes mecanismos, quando fala sobre o trabalho de escrever sobre o mercado de arte (http://blogs.artinfo.com/abovetheestimate/files/2012/10/THORNTON10ReasonsMarketTAR.pdf)

    Abraços,
    André.

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