A verdade na caverna

[30.jul.2012]

O acesso às pinturas rupestres é hoje bastante restrito. Muitas delas foram depredadas por curiosos, turistas e até mesmo por cientistas. Além disso, a luz artificial e a umidade deixada pela respiração do público favorecem o surgimento de um tipo de mofo que ameaça as pinturas. Werner Herzog conseguiu uma autorização para filmar a Caverna de Chauvet durante seis dias, e lá realizou o documentário A caverna dos sonhos esquecidos, lançado em 2010. Nesse trabalho, ele aderiu à tecnologia 3D, interessante não apenas pelo realismo, mas também pelos defeitos que assume: objetos muito próximos da câmera perturbam constantemente essa ilusão, e criam uma sensação de claustrofobia que nos insere ainda mais naquele espaço. Mas o 3D também nos ajuda a entender o modo como aqueles homens do paleolítico exploraram os relevos e a topografia da caverna para compor suas figuras.

A maioria dos livros de história da arte ainda trazem as cavernas de Lascaux, na França, e de Altamira, na Espanha, como locais que abrigam as pinturas mais antigas da história da humanidade, com idade estimada entre 14 e 19 mil anos. A caverna de Chauvet, descoberta na França, em 1994, possui imagens produzidas entre 20 e 30 mil anos atrás.

Essas pinturas não surpreendem apenas pela idade, mas também pelas “soluções figurativas” que apresentam. Se a expressão parece forçosa, é preciso admitir que não há como abordar essas experiências sem ser anacrônico, porque “pintura” ou “imagem” ou “arte” são termos que já projetam sobre elas sentidos que estão mais próximos do nós do que deles. Mas é no anacronismo que reside a riqueza de olhar para essas imagens, porque é ele que forja o diálogo entre personagens tão distantes no tempo. Herzog sabe disso. O filme recorre ao compositor Wagner e à pintura romântica para entender o que a paisagem pode ter significado para aqueles homens, e apela para Fred Astaire (Bojangles of Harlem, 1936) para imaginar a dança das sombras produzidas pelas tochas que iluminavam a caverna.

Herzog, como o público, quer entender a razão dessas pinturas e recorre a vários cientistas para ajudá-lo nessa tarefa. Mas as especulações do cineasta são muito mais ricas do que as discussões técnicas. Melhor ainda são os momentos de silêncio, bem calculados, quando somos convocados a sentir aquilo que a caverna revela de forma mais surpreendente: o tempo. Não o tempo calculado de 30 mil anos, mas o tempo que sobrepôs desenhos feitos ao longo de milênios, que fez desmoronar a entrada da caverna preservando sua escuridão, e que fez soprar por uma fresta o vento que revelou ao presente sua existência. Enfim, o tempo que dá espessura à história.

Nosso desejo é o de saber quem foram aqueles homens. Os cientistas constroem suas hipóteses, mas elas ficam sempre aquém da experiência de olhar as pinturas. Os limites da ciência ficam evidentes quando, apesar de toda sua boa vontade, um pesquisador fracassa ao tentar demonstrar como os antigos caçadores atiravam suas lanças.

Sem poder apreender aquilo que foram, somos nós que nos sentimos expostos.  Como diz Didi-Huberman: “começamos a compreender que cada coisa que se dá a ver, por mais exposta, por mais neutra que seja sua aparência, torna-se inelutável quando uma perda se impõe (…), e desse lugar ela nos olha, nos envolve, nos persegue” [O que vemos, o que nos olha].

Está claro que as pinturas rupestres não se acomodam bem à noção moderna de arte. O historiador Arnold Hauser é categórico nesse sentido: “nessa época de vida puramente prática, tudo gravitava, como é óbvio, em torno da mera subsistência, e nada justifica, portanto, supormos que a arte servia a qualquer outro propósito que não fosse o de constituir um meio para a obtenção de alimentos. Todas as indicações apontam, mais exatamente, para o fato de que se tratava do instrumento de uma técnica mágica e, como tal, tinha uma função inteiramente pragmática que visava alcançar objetivos econômicos diretos” [História social da arte e da literatura].

Herzog não ignora a relação dessas imagens com a magia, mas parece resistir à separação entre os efeitos práticos e os efeitos estéticos que os homens do paleolítico podem ter almejado. Essa hipótese começa pelo entorno: a incrível paisagem da região cortada pelo Rio Ardèche pode ter influenciado a escolha daquela caverna.

Mais do que isso, muitos detalhes apontam para uma forma complexa de simbolização. Parece haver ali o desejo de jogar com as possibilidades da representação: a ilusão de movimento, a consideração do ponto de vista, a composição, a narrativa, a exploração dos volumes das paredes para dar perspectiva às figurações… Aqueles homens, estavam tentando dar conta do mundo por meio da imagem, mas estavam também tentando dar conta das próprias imagens.

Definitivamente, há algo de estético nesse gesto, por mais utilitário que seja. Para além de suas necessidades práticas, esses homens devem ter observado essas pinturas por milênios. Quando um deles entrou ali, viu as imagens de seus antepassados e deixou ao lado delas sua própria inscrição, quem sabe não estivesse também nos imaginando. Essas paredes que viram surgir a humanidade, contemplam de algum modo toda sua história.

Platão nos convida a sair da caverna e a renegar os simulacros projetados em suas paredes. Em sua teoria, a alma é lançada a um lugar metafísico onde se torna capaz de pensar as coisas fora do tempo. Nesse lugar, tanto ela quanto as verdades são perfeitas e eternas. Mas as cavernas escondem uma verdade maior, anterior. O que nos assombra agora é reconhecer nelas não apenas a antítese desse ideal platônico mas, como sugere Herzog, o lugar em que a própria alma humana foi forjada, juntamente com as pinturas e, talvez, por meio delas.

Leio agora que a caverna de Castillo, na Espanha, pode desbancar Chauvet com imagens que talvez alcancem 40 mil anos de idade. Tanto faz! A data calculada pelos cientistas ainda é menos relevante do que a aura captada por Herzog. Os homens que pintaram Castillo terão que aguardar a oportunidade de um diálogo efetivo com o olhar do presente. Afinal, sabíamos de Chauvet havia algum tempo, mas foi apenas na caverna escura do cinema que pudemos ser tocados pelo sentido de suas pinturas.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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