A primeira câmera de vigilância

[12.jun.2018]

Sob o título “Cuidado com o Daguerreotypo”, o jornal português O Recreio trouxe, em 1841, o relato de um evento ocorrido supostamente na França em que um assaltante foi identificado de forma um tanto inusitada, graças à fotografia. O texto é representativo de uma percepção muito rapidamente disseminada no século XIX: primeiro, de que a fotografia é uma imagem que não depende da intervenção humana; segundo, de que, por isso mesmo, ela constitui um testemunho irrefutável. Mas esse texto, que ilustra em tom irônico o compromisso da fotografia com a verdade, é uma ficção. Fake news avant la lettre! Ou, no mínimo, alguém se divertindo com o deslumbrado dos leitores diante da nova técnica.

Conhecendo um pouco o processo do daguerreótipo, não há como supor verossímil esse registro acidental que teria culminado na prisão do invasor. Até o nome da vítima do assalto (“Beaux” é o plural de belo, em francês) tem algo de caricatural.

Não deixa de ser uma crônica graciosa. Enganosa quanto ao fato, mas muito fiel ao imaginário constituído em torno da fotografia. Mais do que isso, precisa na intuição de que, mais cedo ou mais tarde, as câmeras iriam, por conta própria, zelar por nossa segurança.

Cuidado com o Daguerreotypo

 

Carlos Beaux é uma das pessoas que sabe servir-se do Daguerreotypo com mais conhecimento de causa, e por isso tem a todo o momento prompta aquella maquina para tirar as vistas das lindas e innumeras paizagens que se descobrem das janellas da sua casa de campo. Um dia que elle estava todo entregue ao seu divertimento favorito, eis-que um negocio imprevisto e de summa importancia o obriga a ausentar-se de casa com toda a sua familia, e a demorar-se por fóra quasi dois dias. – No entanto houve um individuo que teve a curiosidade de visitar o seu quarto de cama, para o que lhe foi necessario escalar a parede que dava sobre o jardim e arrombar a vidraça. – Quando o dono da casa voltou, achou as gavetas abertas, e 3:200 francos de menos; mas como não tinha o menor indicio por onde pudesse conhecer o ladrão, forçoso lhe foi soffrer a cousa com paciência. – Para conseguir alguma distracção, nada havia mais proprio do que a execução de alguns desenhos por meio do Daguerreotypo. – Mette pois mãos á obra: o instrumento havia ficado preparado á sua partida, e a lamina ja collocada no foco da Camara obscura. – Mas ó surpreza! O desenho acha-se concluído, antes de começado, e o objecto que representa é inteiramente extravagante! Um homem vestido com uma blouse está com uma torquez na mão em acção de arrombar a gaveta aonde estava o dinheiro: os trastes que cercão a commoda a que pertencia a gaveta sãos os mesmo do quarto de Mr. Beaux; a figura do homem de blouse é a mesmíssima do seu jardineiro. – O incauto curioso, que certamente não pensava que o Daguerreotypo o atraiçoasse, havia penetrado no quarto no momento em que um raio do sol passava precisamente defronte da maquina que ja estava prompta para operar. – A fidelidade com que o pérfido Daguerreotypo representou esta scena, tirou ao ladrão todos os meios de defeza perante o Delegado do Procurador Régio, a quem foi apresentada a lamina reveladora, como testemunha do roubo.

[O Recreio, n.º 2, Fev. 1841]

***

A notícia aparece na compilação de textos que acompanha a dissertação de mestrado A retratística em Portugal e a introdução da daguerreotipia (1830-1845), apresentada por Catarina Miranda Basso Marques, na Universidade do Porto, em 2006.
A imagem – ilustração totalmente anacrônica – que abre o post mostra um assalto registrado pela câmera de segurança de um banco de Cleveland, em 1975. Integrou a exposição Crime Stories: Photography and Foul Play, no Museu Metropolitan de NY, em 2016.

 

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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