A perda e o reencontro: as várias distâncias das imagens

[23.set.2016]

Gisele Beiguelman, Deserto Rosso, 2016

Gisele Beiguelman, Deserto Rosso, 2016

Encerra-se neste fim de semana a exposição Cinema Lascado, de Giselle Beiguelman (curadoria de Eder Chiodetto), na Caixa Cultural-SP. No mesmo local, o público pode ver também A Valise Mexicana, com fotografias da Guerra Civil Espanhola feitas por Robert Capa, Gerda Taro e David “Chim” Seymour (curadoria de Cynthia Young). Em comum, essas exposições testemunham os descaminhos a que as imagens estão sujeitas. Mas elas se complementam justamente por mostrar duas posturas distintas que convocam do olhar: Cinema Lascado assume a “perda” – palavra destacada pela própria artista – como elemento constituinte dessas imagens que parecem sempre próximas e disponíveis; A Valise Mexicana celebra a restituição daquilo que parecia distante e irrecuperável.

Robert Capa, Batalha de Teruel.

Robert Capa, Batalha de Teruel.

Em Cinema Lascado, Giselle Beiguelman revisita seus arquivos destacando aquilo que eles tem de efêmero: as imagens são muitas e são falíveis, distanciam-se rapidamente no fluxo das timelines, corrompem-se ou se tornam ilegíveis graças à instabilidade das mídias ou da obsolescência dos programas que utilizamos para lê-las. Por sua vez, Valise Mexicana mostra fotografias que desapareceram por muitas décadas, que cumpriram uma longa jornada, mas que sobreviveram e mantiveram sua promessa de legibilidade.

Cinema Lascado reproduz a experiência contemporânea da fragmentação: é uma exposição que pode ser vista a certa distância, num percurso mais incerto e hesitante, porque assume a interferência de uma imagem sobre a outra: não apenas os ruídos sobre as imagens, mas as próprias imagens como ruído. Valise Mexicana convida à percorrer a totalidade de uma grande narrativa. As fotografias e as folhas de contatos devem ser vistas de perto, lentamente, com lupa, quadro a quadro. Elas pertencem a uma época em que depositávamos uma enorme confiança na estabilidade e na integridade dos documentos produzidos pela técnica. Já Cinema Lascado assume que boa parte das nossas memórias só poderá sobreviver como ruína, incompleta, transformada, contaminada.

valise

Valise Mexicana traz a experiência com uma imagem que é histórica, própria de um tempo heroico, inconfundível, do qual certamente temos grande nostalgia. Cinema Lascado fala de um presente que já nasce contaminado de muitos outros tempos: um pouco do mesmo olhar moderno forjado pela fotografia e pelo cinema, as tecnologias digitais que, em cada uma de suas fases, sempre prometiam nos tornar mais próximos do futuro e, por fim, algo de uma época arcaica em que as formas eram talhadas por uma força bruta: a idade pedra lascada.

São duas exposições boas para ver em sequência, porque dão conta da amplitude de experiências que a imagem é capaz de produzir. Saindo de lá, vale dar um passeio pelo centro de São Paulo. O olhar terá mais chances de tirar proveito das contradições que compõem a paisagem dessa cidade.

jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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