A imagem do ano do World Press Photo

[13.fev.2011]

Revista Time, 19/07/2010

Revista Time, 19/07/2010

Fiquei surpreso com a foto escolhida como “imagem do ano de 2010” pelo World Press Photo: o retrado feito pela sulafricana Jodi Bieber da jovem afegã Aisha, que teve seu nariz e orelhas decepados pelo marido, com o apoio do Taleban.

Lembro bem de quando a imagem circulou pelo mundo no ano passado depois de ser publicada na capa da revista Time. É desse tipo de cena que você olha com o estômago e só consegue responder com o silêncio.

Foi uma experiência forte, sem dúvida, mas em momento algum senti que estava diante de uma grande fotografia. Ela é boa talvez no sentido de demandar credibilidade e de dar expressão à gravidade do fato. Mas nada muito além disso.

Vamos então refletir um pouco mais sobre essa imagem, sobre sua publicação pela Time, sobre o prêmio recebido. Não tenho clareza do que penso. Acreditem, vou tentar entender enquanto escrevo.

– A imagem expõe o resultado da violência sem nenhum pudor. Sensacionalismo? A imagem é sem dúvida “apelativa”, no duplo sentido do termo: é um clamor e uma superexposição. Difícil saber se uma coisa justifica a outra, isto é, se a necessidade de trazer algo à nossa consciência justifica a carga excessiva colocada sobre nosso olhar. Mas essas duas coisas estão lá, tanto pior se fosse apenas a segunda. Como assume o editor, “nossa imagem de capa desta semana é forte, impactante e perturbadora”. Não é só isso. Sem nenhuma ingenuidade, eles estão bancando ali uma quase propaganda (de guerra): “o que acontece se deixarmos o Afeganistão”, diz a chamada, referindo-se à discussão sobre o fim da intervenção política e militar dos EUA no país do oriente-médio. A imagem é a resposta.

– Não é apenas a violência que nos perturba. É sua proximidade. O Afeganistão continua longe e, em princípio, ainda estamos “diante da dor dos outros” à qual normalmente reagimos com um misto de repulsa e curiosidade. Mas, nesse caso, há algo diferente, um vínculo forte com o ocidente. Não só porque os EUA estão no Afegaistão (esse é o tema da reportagem da Time), ou porque a garota já estava sob a proteção das tropas americanas, antes de seguir para os EUA. A questão é que temos ali uma beleza que também é a nossa, uma mulher que poderia ter qualquer nacionalidade, um rosto que, se não estivesse mutilado, não apenas despertaria nossa compaixão, mas também nos seduziria. Há um potencial ocidental nesse rosto que impede sua abordagem como exótico. Diferente de pensar “pobre das mulheres daqueles homens”, é como se a violência tivesse agora atingido uma das nossas. Portanto, o próprio fato envolve uma questão de identificação com uma imagem.

– A foto parece ser pouco elaborada, um retrato numa capa como tantas outras que já vimos. Não há uma composição que se destaca, um enquadramento peculiar, um instante decisivo. No site de Jodi Bieber, há vários ensaios que demonstram melhor sua competência. Há coisas realmente boas por lá. Mas e a foto desta capa? Não podemos ser ingênuos: essa simplicidade não deixa de ser uma construção. A fotografia de aberrações (pessoas doentes, deformadas, mutiladas…) é quase um gênero histórico que possui sua própria linguagem.  Mas não é o caso. Temos ali um retrato com um leve toque publicitário: um sombreado ao fundo, um torso precisamente colocado entre a frontalidade e o perfil, um olhar de canto de olho mas que enfrenta a câmera,  um vestuário oriental soft. E claro, aquele rosto que tinha tudo para ser belo. Poderia ser a foto de uma campanha publicitária, de um book de modelo, ou de uma personalidade qualquer que aparece em capas de revista. Nossa perturbação aumenta exatamente porque essa imagem coloca um conteúdo numa forma que parece não lhe pertencer. É uma estratégia forte e precisa que tem antecedentes: August Sanders, Diane Arbus, Joel-Peter Witkin… Acho que a Time teve consciência desse deslocamento, de que mostravam alguém que passou por uma experiência limite de violência do mesmo modo que mostrariam o ganhador do Oscar ou o investidor do ano. Mas duvido um pouco de que os jurados do prêmio tenham passado por questões dessa ordem. Por sua vez, a fotógrafa diz algo que quase segue nessa direção, mas de um modo mais poético: “quis mostrar sua beleza, não quis mostrá-la como uma vítima”. Mas não podemos ser hipócritas: aos nossos olhos, sua beleza apenas agrava sua condição de vítima, escancara aquilo que foi perdido.

– Mesmo que haja grandes trabalhos premiados, sinto que o World Press não se preocupa tanto com a originalidade autoral. Já vimos por lá bichinhos, paisagens, também já vimos acidentes e catástrofes, tudo isso em fotos que são, no máximo, interessantes e corretas. Isso significa que o prêmio valoriza não tanto – ou não apenas – a obra, mas a beleza do fato, a importância do fato, a gravidade do fato, e a capacidade do fotógrafo de estar ali quando as coisas acontecem. É uma concepção clássica de fotojornalismo, também não é a minha preferida, mas tem lá sua legitimidade. Neste caso, não parece ser diferente: o prêmio não considera apenas a foto, mas também a importância do contexto que ela revela e do qual participa. Mas, mesmo os bichinhos e as catástrofes costumam aparecer no World Press com composições mais sofisticadas que essa.  Normalmente, o público ainda diria: “nossa, que foto!”. Aqui, seria: “nossa, que coisa, que desgraça, que maldade!” Talvez, simplesmente: nossa!”.  Os parâmetros não parecem estéticos, imagino que um dos principais ingredientes dessa escolha seja a comoção. Vale explicar. Por comoção, podemos entender um “movimento coletivo”, o desejo de considerar o afeto do público como um componente da comunicação de massa (como fazem explicitamente os roteiristas de novela quando conduzem a trama em função de uma vontade média). Mas claro, essa comoção não é fútil, ao contrário, considera a importância do tema, é politizada no sentido de destacar o papel que a fotografia teve para esse público na compreensão de uma realidade e na afirmação de uma causa. De todo modo, se esta hipótese faz sentido, isso significa trocar um papel “formador” que um evento cultural poderia ter por um papel simplesmente “consagrador”.

Por um instante, eu mesmo achei que poderia chegar à conclusão de que o prêmio foi justo ou injusto. Mas não é preciso trazer o debate para o campo moral. Se estranhamos a escolha, temos que tentar tirar um sentido disso. Construir um olhar crítico sobre as imagens é muito mais produtivo do que reivindicar uma pretensa objetividade das fotografias, das exposições, dos concursos.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

7 Respostas

  1. Também, sem querer me aprofundar muito no tema…

    * A foto lembra muito a capa da National Geographic com aquela garota do Steve McCurry. Sem dúvida, a foto mais importante da vida dele: http://www.olhave.com.br/blog/?p=5499

    * Originalidade, realmente, já se foi o tempo… Nada que tire o brilho de uma foto dessa.

    * Outra coisa é a potência da foto que coloca de lado qualquer outra questão estética ou técnica.

    * Já faz tempo que a Foto do Ano do WPP não reflete o concurso como um todo e tem muita relação com “a mensagem dos jurados” [!?] para temas ou questões políticas. Exemplo é a Foto do Ano da edição passada. É engraçado observar as edições dos anos 90 e ver que a Foto do Ano ERA de fato a Foto do Ano. Não é mais assim.

    * O fato do Burnett ter chefiado a comissão de jurados tem reflexo numa escolha dessa também. Eu acho… Sei lá…

  2. Achei ótimo, Ronaldo, você ter se esquivado de sentenciar se é uma foto merecedora ou não do prêmio. É muito mais interessante desdobrar a foto do que carimbá-la.

    Sem dúvida, o WPP é um prêmio antes jornalístico do que fotográfico. Sempre foi. Por mais que o Alexandre tenha razão em apontar que o júri outrora já foi menos “panfletário”, digamos, é fato que o WPP sempre foi um prêmio feito por jornalistas e endereçado à jornalistas. O WPP não faz curadoria, não discute história da arte ou semiologia; seleciona e divulga histórias escritas à luz. E no mundo do jornalismo “À sangue frio” é muito mais valorizado que “Ulisses”, por mais que o livro do Joyce seja muito mais inovador e crítico.

    Me parece que a mensagem desse prêmio é saudar o jornalismo que mostra o “outro lado do outro lado” sobre a guerra do Afeganistão. Ultimamente tem sido muito fácil desancar a atuação dos EUA no oriente médio, e o WPP resolveu evidenciar que a questão é mais complexa do que pintar os afegãos de vítimas e os estadunidenses, de algozes.

  3. É uma imagem que tem o poder de comover o ocidente como corpo coletivo (vale discutir se é interesse público ou interesse DO público?) pela mutilação covarde à ela imposta e pela técnica de portrait utilizada, pois não é um instantâneo em campo. De qualquer forma, acho que não tem jeito: para a maioria das pessoas que enxerga a capa (eleitores e pagantes de impostos) aquilo é “documento”, e merece não somente solidariedade como atitude prática desproporcional dos investigadores/ juízes/ executores do mundo civilizado; não adianta *vermos* a legenda ideológica e o objetivo tipo “tão vendo? ‘temos’ que acabar com isso!”
    A fotógrafa é extremamente séria, política, tem vínculo com as pessoas mais do que clicá-las, e permanece junto aos temas com tempo e afeto; só lamento que, como sempre acontece nessas polêmicas, ela não dê o braço à torcer que a sua foto foi usada como propaganda belicista… fico pasmo como fotógrafos profissionais tem dificuldade em ler o próprio trabalho quando este é midiatizado. Bom, talvez não importe mesmo, essas recontextualizações seriam apenas um Collateral Damage negociável, aceitável e indissociável da comunicação de massa.

  4. Penso que temos aí várias questões interessantes. Uma coisa é a foto, a inscrição no prêmio, que traz aquela tal transparência, onde enxergamos mais o assunto do que a foto em si. Mas a fotografia sempre trata de um assunto, não é mesmo? E tocar nesse assunto, escolhê-lo, organizá-lo, levá-lo adiante também é parte do fazer fotográfico.

    Um outro ponto, que penso estar fora da questão do prêmio, mas que é muito sério, é a construção de significado que se dá pela associação de uma fotografia a um texto, um título, uma legenda, uma chamada. Acho muito mais lamentável essa conexão entre violência da mulher e ocupação americana. Vários fotógrafos já abordaram a questão da violência contra a mulher na cultura árabe/muçulmana, com fotos muito impactantes. É um traço cultural que, em determinadas situações, é visto como natural que uma mulher seja desfigurada com ácido por negar um casamento arranjado. Paula Bronstein tem um trabalho bem impactante (http://www.life.com/image/79702486), por serem muito impactantes os resultados dessa prática.

    A fotografia vencedora do WPP é um retrato, na sua concepção mais clássica, com fundo neutro, iluminação bem distribuída, ausência de outros elementos além do próprio fotografado, posicionamento em 45 graus, olhando diretamente para a objetiva.
    Concordo com Alexandre no sentido de que o prêmio tem usado essa categoria de uma maneira mais “livre”. Uma abertura para outras mensagens.

    Como o caso da menção honrosa que foi dada a um trabalho feito através do Street View do Googlemaps.
    Estão sendo operadas transformações no fotojornalismo…

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