A diversidade das coisas que são as mesmas: Andrey Zignnatto e Vincent Mauger

[18.fev.2016]

A Folha de S. Paulo repercutiu a polêmica envolvendo o jovem artista brasileiro Andrey Zignnatto, que foi acusado pelo crítico Maxence Alcalde de plagiar obras do francês Vincent Mauger (“A espinhosa questão do plágio na arte contemporânea“). A conclusão se baseia numa semelhança desconcertante e numa questão de cronologia: Mauger fez antes, Zignnatto fez depois. O texto não traz nenhum fato que demonstre que um artista conhecia a obra do outro. Não conheço Zignnatto e não posso dizer de onde vêm suas referências. Talvez se trate mesmo de plágio. Mesmo assim, acho que cabe deixar o espaço para a dúvida, não tanto em benefício do artista, mas em respeito às exigências do ofício da crítica.

Andrey Zignnatto

Andrey Zignnatto

Vincent Mauger

Vincent Mauger

Se há semelhança, há também na trajetória do artista brasileiro – que já trabalhou como ajudante de pedreiro – uma relação própria com o material que utiliza. Aquilo é tijolo, antes de ser obra de arte. E esse tijolo, destacado como um tanto específico do ponto de vista europeu – é nosso corriqueiro “tijolo baiano”, aquele que vemos todos os dias nas casas definitivamente inacabadas que compõem nossa paisagem. A dissolução de materiais que deveriam ser sólidos e estruturantes é algo que aparece no trabalho de muitos artistas, além de Mauger e Zignnatto, e chega mesmo a constituir um estilo da arquitetura que foi chamado de descontrutivismo. Antes dessas leituras eruditas, essas formas já estavam ao nosso redor, em tantas edificações que já nasceram como ruínas.

Frank Gehry. Edifício, Dr. Chau Chak Wing, Austrália.

Frank Gehry. Edifício, Dr. Chau Chak Wing, Austrália.

Quantas vezes, vendo trabalhos de alunos e de outros jovens artistas, reconhecemos aproximações desconcertantes com trabalhos já consagrados. E, então, já era? Ao contrário, o recado tem de ser: estude, confronte-se com essa produção e encontre seu próprio lugar. Caso contrário, cederemos rápido demais à sensação – e ao chavão – de que tudo já foi feito. Mas, é verdade, continua sendo responsabilidade do artista buscar no mundo as experiências com as quais, por acaso ou não, consciente ou inconscientemente, sua produção dialoga. Antes da acusação de plágio, essa tem que ser a bronca.

Se lermos os comentários que se seguem ao post no blog de Alcade, veremos que um leitor comenta uma polêmica que envolveu o próprio artista francês: ele próprio foi acusado de ter plagiado, em alguma de suas obras, o espanhol Miquel Barcelo, que também trabalhou com tijolos deformados. Isso não redimiria Zignnatto. Mas demonstra o quanto essa conversa pode não ter fim.

Terra Ignis, de Miquel Barcelo

Terra Ignis, de Miquel Barcelo

Em A transfiguração do lugar comum, o filósofo Arthur Danto se imagina no papel de um curador, organizando uma exposição que inclui uma série de telas vermelhas de mesmo formato, realizadas por vários artistas. Com a devida segurança, ele identifica essas obras como exemplares muito distintos da abstração, de algumas linhagens da figuração, da apropriação, reconhece também uma tela inacabada e até mesmo um objeto de valor artístico duvidoso. Segundo Danto sugere em sua anedota, coisas idênticas podem constituir obras muito distintas. E, antes disso, podem ou não constituir obras de arte. Porque tal condição não cabe totalmente em sua matéria e em sua aparência. É justamente isso que permite a surpresa mesmo quando tudo parece já ter sido feito.

 

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

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