A construção de uma geração

[19.abr.2011]

Geração 00 é uma mostra que assume um grande desafio e, claro, alguns riscos: pensar a produção fotográfica de um período marcado pela liberdade de procedimentos, pela velocidade das mudanças, uma década sem um marco inicial e sem um desfecho evidente, vivida por artistas de formações e idades muito distintas.

Seria pretensioso propor o mapa de um território movediço que, se tem uma marca evidente, é a despreocupação com suas fronteiras (aquilo que distingue a fotografia de outras linguagens artísticas e, ainda, aquilo que define cada um de seus usos sociais). Mas Eder Chiodetto, curador da exposição, é cuidadoso ao dizer que o que pretende é sintetizar não propriamente essa produção recente, mas suas principais “linhas de força”. Sendo assim, não cabe julgar o resultado pelos nomes individuais selecionados ou, sequer, por um ou outro tipo de fotografia que ficamos tentados a identificar como hegemônico.

Podemos pensar em instalação, performance, vídeoarte, foto-filme, infografia, abstracionismo, fotografia construída etc. De algum modo, essas experiências estão lá devidamente representadas. Mas essas palavras que tentaram dar conta de um universo de experimentações surgidas nos últimos trinta, quarenta anos, de um lado, já revelaram seus limites e, de outro, já se institucionalizaram. Em vez de novas nomenclaturas e categorias unificantes, essa síntese visa promover uma experiência efetiva com a pluralidade.

Guilherme Maranhão, da série Pluracidades, 2006-2010.

A ênfase dada às novas tecnologias poderia apontar para um tipo didático de transgressão, ainda preocupado demais em expor uma “denúncia” da tradição. Mas estão lá as grandes e as pequenas experimentações, da desmontagem mais evidente dos códigos ao gesto sutil de encenação que perturba a confiança na imagem. E, cabe dizer, também está lá a “fotografia-fotografia”, colocada na moldura, na parede, estão lá o documento, a memória, o fotojornalismo, a pesquisa antropológica, velhas coisas que, num certo momento, a fotografia pareceu ter de negar para se afirmar contemporânea. Exatamente pelo embate que propõe entre a tradição documental e a experimentação, a leitura proposta pelo bloco “Documental Imaginário, Novo Fotojornalismo” me pareceu a mais impactante.

Se eu tivesse de apontar algo que distingue a produção dessa década, arriscaria o seguinte: agora, as liberdades conquistadas nas gerações anteriores podem ser praticadas sem a necessidade de uma bandeira, sem a eleição de um inimigo, sem rituais de auto-afirmação. Essa liberdade significa a “possibilidade” e não a “obrigação” da transgressão. E é isso que permite a reinvenção do documental nesse campo de experimentação, é isso também que sepulta a velha e precária distinção entre fotojornalismo e fotografia artística.

A exposição acerta ao dosar bem suas pretensões: não se trata de tentar definir – como tantas vezes se tentou – o que é a fotografia contemporânea, mas sim de apontar potencialidades (as “linhas de força”) que foram consolidadas nessa década, mesmo que não necessariamente nela inauguradas. Estranhamos encontrar ali Cláudia Andujar, com uma fotografia de 1976. O texto fala em homenagem, mas também podemos entender essa presença como uma espécie de relativização: o reconhecimento de que toda periodização é arbitrária, de que a história é feita sempre de diálogos, sobreposições e retornos. Portanto, assim como Cláudia Andujar soube se renovar nas décadas seguintes, todas as novidades propostas por essa nova geração têm também seu devido diálogo com a história.

A exposição possui dois blocos: “Limites, Metalinguagem” e “Documental Imaginário, Novo Fotojornalismo”. Honestamente, eu preferia que não houesse esse salto, mas imagino que havia ali limitações impostas pelo espaço. Também reconheço que essa separação ajuda a identificar dois efeitos produzido pela síntese proposta: mesmo que não haja homogeneidade, enxergamos dentro dos blocos certas “concentrações de força” (alguns modos peculiares de se debater com o meio), e mesmo que não haja contradições, a passagem entre os blocos sugere a presença de “tensões de forças” (entre uma imagem que quer pensar a si mesma e outra que ainda tenta dar conta do mundo diante da câmera).

Alexandre Sequeira, da série Meu Mundo Teu, 2007

Vi que essa exposição gerou dúvidas que, creio, a própria fotografia pode ajudar a responder.

Essa curadoria produz um retrato fiel dessa geração? Não. Mas e a fotografia, ela própria, produz um retrato fiel de alguma coisa? A curadoria também é um recorte que, como tal, assume seus limites, exclui, mas também permite a leitura de um extraquadro. Seria estranho supor que uma obra está ali representando outras de sua categoria. A própria exposição nos convida a duvidar da ideia de categorias representativas, e esperamos ter outras oportunidades para ver aquilo de bom ou de ruim que ficou de fora. Mas é preciso reconhecer que a reflexão que se desprende da exposição é sim bastante inclusiva: demarca e estimula a sensibilidade ampla que a produção contemporânea exige. Assim, essa experiência certamente nos ajuda a pensar outros tantos artistas dessa mesma geração que não foram mostrados. Aliás, muitos deles estavam lá na abertura da exposição reforçando o debate sobre uma experiência que ajudaram a construir.

Mais do que identificar, essa curadoria não constrói uma idéia de geração? Sim. Mas e a fotografia, não é ela também uma construção? Ao tentar identificar um fenômeno, uma investida conceitual desse porte certamente lhe impõe um modo de existência. É ao mesmo tempo uma leitura e uma ação, isto é, uma curadoria é o sinalizador e o motor dos processos que apresenta. Na prática, Chiodetto já teve um papel importante na projeção de alguns daqueles nomes e na afirmação de seus trabalhos. E é evidente que uma exposição como essa pode fazer o mesmo com outros artistas menos consagrados. Não é preciso ver isso com moralismo, temos hoje plena consciência de que o crítico, o curador e o colecionador são coautores dos sentidos que, depois, com algumas décadas ou séculos de distanciamento, os historiadores tentarão alinhavar. Se isso soa algo perigoso, Eder Chiodetto parece ter a devida consciência de que, além das questões estéticas obviamente implicadas, esse gesto de poder também exige uma ética. Se as escolhas feitas por um curador são sempre arbitrárias, tem sido exemplar o modo como ele se abre ao diálogo, como expõe seus critérios, como discute suas decisões nos textos, palestras, aulas, nas visitas guiadas e nas conversas informais.

Qualquer um que passar por lá vai lembrar de uma dúzia de nomes que gostaria de ver incluídos. Também pode estranhar uma ou outra presença. Mas é impossível não reconhecer a força do conjunto apresentado. Aguardaremos outras leituras, mas esta geração já se revelou privilegiada, pelo que produziu, mas também por merecer uma exposição como esta.

***

Geração 00 fica em cartaz no Sesc Belenzinho, em São Paulo, até o dia 12/06.

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jornalista, pesquisador, doutor em Artes pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), professor e coordenador de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

13 Respostas

  1. Assino embaixo. Sem tirar um ponto e vírgula sequer.

  2. Uma aula sobre outra aula!
    Belíssimo tempo, o de hoje, para pensar e produzir imagem.

  3. É grande a responsabilidade de falar sobre esta exposição que Eder nos apresenta. Estamos de alguma forma ligados a ela pelo período, por artistas amigos, pela experiência na sala de aula como professores.

    Ronaldo consegue levantar alguns pontos sensíveis deste projeto que tem ótimos trabalhos e artistas que para além das obras expostas ali, nos fazem pensar no período 00.

    Para mim, o que fica marcado em Geração 00 é o próprio percurso do curador que sinaliza com esta mostra sua pesquisa e crescimento neste papel, neste mesmo período. Eder seria na fotografia o curador 00. Talvez este seja um de seus trabalhos mais ousados, justamente porque sinaliza aquilo que passou no filtro critico, estetico e afetivo da sua trajetoria.

    No mais, acho perigosa a expressão Novo Fotojornalismo. Remete a uma velha questão que me parece não cabe mais levantar prós e contras. Os trabalhos expostos nesta categoria já transcenderam este debate.

    “Bom tempo para pensar e produzir imagens”, concordo contigo Leo.

  4. Só gostaria de chamar a atenção a grafia errada de ”tecnologia”, no início do terceiro parágrafo, que deve ter passado despercebida na revisão.

  5. Ronaldo, seu texto é fundamental para compreender essa exposição, você também é um coautor de sentido.

  6. Acho o comentario da Livia bastante esclarecedor,
    “Para mim, o que fica marcado em Geração 00 é o próprio percurso do curador que sinaliza com esta mostra sua pesquisa e crescimento neste papel, neste mesmo período. Eder seria na fotografia o curador 00”

    mas ainda acredito que existe um posicionamento de mercado que marca essa expo………

  7. realemente muita coisa nesse expo passou pelo filtro afetivo de Eder como a Livia bem comentou, ha muito de companherismo nessa exposição

  8. Sérgio, acho que temos aqui um problema de contexto. Passar por um filtro critico, estetico e afetivo não tem o mesmo sentido deste ‘companherismo’ que vc assinalda de forma maliciosa.

  9. … muito bom isso aqui… e no sesc belenzinho… o companherismo faz parte, é óbvio… só ver os nomes citados pô!

    .. na boa mas é assim mesmo que sempre funcionou…

    vida longa!

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