25 anos de A ILUSÃO ESPECULAR

[27.out.2009]

O Brasil não gosta de efemérides. Muito menos de discutir mecanismos de preservação e conservação de informações que pertencem à nossa história. Ou até mesmo as reedições são raras em nossa história do livro, particularmente do livro de fotografia. Acreditamos até o último momento que alguma editora pudesse fazer uma nova edição deste clássico da fotografia brasileira.

ilusao_especularO livro A Ilusão Especular – Introdução à Fotografia, de Arlindo Machado,  foi publicado em 1984, graças a uma ação conjunta entre a Editora Brasiliense e o Instituto Nacional da Fotografia/Funarte, e ao esforço de Pedro Vasquez, na época Diretor do INFOTO. Por iniciativa própria e por acreditar que também temos que contemplar a produção dos pesquisadores, historiadores e críticos que pensam a fotografia como uma manifestação visual particular e com características próprias, Pedro Vasquez criou a Coleção “Luz e Reflexão”, iniciada em 1983, com a publicação de Universos e Arrabaldes, de Luis Humberto. Pedro Vasquez justificou a importância da coleção que se propunha, entre outras metas, “garantir em espaço fixo para o debate das questões fotográficas”.

No início da década de 1980 várias editoras arriscaram a publicação em língua portuguesa de livros que contemplavam a fotografia: em 1981, tivemos Ensaios sobre Fotografia, de Susan Sontag, e A Câmara Clara de Roland Barthes; e, em 1985 Vilém Flusser com o antológico Filosofia da Caixa Preta – ensaios para uma futura filosofia da fotografia.

Isso nos permitiu antever um espaço de democratização da produção científica, crítica e histórica da fotografia, ao mesmo tempo em que se abria uma nova possibilidade de articulação entre os diferentes autores que potencializaram o campo da reflexão fotográfica.

Por razões diversas a coleção idealizada não progrediu, mas A Ilusão Especular tornou-se referência obrigatória para fotógrafos e pesquisadores. Uma rápida pesquisa nos sites de vendas de livros é possível, de tempos em tempos, se deparar com algum exemplar “em bom estado” de A Ilusão Especular, por um preço assustador: R$ 300,00. Como vimos isto ser praticado nos últimos anos, já se justifica uma nova edição.

Queremos lembrar Arlindo Machado que na Introdução assinala: “ O que nós chamamos aqui ‘ilusão especular’ não é senão um conjunto de arquétipos e convenções historicamente formados que permitiram florescer e suportar essa vontade de colecionar simulacros ou espelhos do mundo, para lhes atribuir um poder revelatório. A fotografia, em particular, desde os primórdios de sua prática, tem sido conhecida como ‘espelho do mundo’, só que um espelho dotado de memória”.

Parece que os nossos editores se pretendem efêmeros, não dotados de memória. Mesmo assim, vale o registro dos 25 anos de existência de um dos textos mais citados em teses acadêmicas no país que versam sobre fotografia.

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Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).

14 Respostas

  1. Parabéns ao Arlindo e a você Rubens pela lembrança, Sou da geração mais que devedora destes textos, que instigaram alguns fotógrafos não somente a olhar pela câmera em busca de imagens, mas a pensar sobre elas.
    Continuo torcendo para que alguns livros ( vide posts do Oiticica) saiam finalmente do forno, e nos ajudem a combater este marasmo infernal.
    Juan Esteves

  2. Professor, bela lembrança! Preservar a memória me parece bem mais que uma ação civilizatória ou de compromisso com a nossa história.
    Em um de seus cursos sobre fotografia vc citava a idéia: As civilizações que não conheceram a fotografia, morreram duas vezes. Não me recordo de quem era isso…
    Mas penso que civilizações que desperdiçam suas memórias, nem mesmo passaram a existir.
    E você foi o responsável por muitas das minhas, que ainda me inspiram e expandem o meu olhar.
    Grande abraço desse seu sempre aluno!

  3. Fazia tempo que eu me perguntava porque ninguém reeditava esse texto. Até achei que era o Arlindo que não queria (às vezes ainda acho). Mas realmente é um livro seminal na reflexão da fotografia como linguagem, não teria feito minha monografia de conclusão de curso sem ele. Que editora abrigaria este projeto?

  4. Opa! Comprei por R$ 150,00!! Pensei assim, se o preço tem sido cotado até em R$ 300,00, comprei por metade do preço(rs)..ficou barato!

  5. Reeditar este livro seria sem duvida uma forma de valorizar a produção dos pensadores brasileiros.
    Seria uma grande oportunidade de vermos o próprio autor revendo seus conceitos após anos de pesquisa na área. Vamos torcer para que nossas editoras valorizem isso também.

  6. Também só achei por esse preço exorbitante (acabei não comprando). Feliz do Pio que conseguiu mais barato!

    Acabei lendo edição da biblioteca da ECA-USP, que está precisando de uma bela reforminha (aliás, o exemplar está aqui na minha mão hoje, devolvo amanhã!).

    Infelizmente, como ocorre com grande parte do que foi publicado pela Editora Brasiliense, as reedições são complicadas. Suspeito haver alguma pendência jurídica sobre direitos após a falência da editora…

    De qualquer forma, o livro é um dos textos mais importantes sobre a fotografia de autores brasileiros. Quando o incorporei no meu trabalho de mestrado, foi fundamental para resolver questões intuitivas que estavam sem fundamentação teórica (defendo a qualificação amanhã).

    Boa lembrança!

  7. Faço coro aos que torcem por uma reedição desse livro, que para mim está no topo da lista dos ensaios sobre e teoria da fotografia.

  8. Obrigado, Rubens, pela lembrança dos 25 anos de A Ilusão Especular. Soube do seu texto através do Wagner Souza e Silva. Não houve reedição do livro porque a coleção a que ele pertencia foi descontinuada e logo em seguida a Brasiliense entrou em processo de falência, após a morte de seu proprietário. Mas a editora Martins Fontes já manifestou interesse na reedição do livro. Contratei uma pessoa para digitalizar todo o texto (naquela época não havia computador), mas ainda não tive tempo para fazer a revisão. A nova edição será atualizada (havia uns errinhos chatos na primeira edição) e terá um apêndice com uma seleção das críticas de fotografia que publiquei na Folha de São Paulo durante os anos 1980 (lembro-me de que quando parei, você me substituiu, aliás com superior competência). O único problema está sendo comprar os direitos das fotos. Naquela época não nos preocupávamos com isso, mas hoje a lei está mais draconiana. De qualquer forma, a segunda edição deve sair no próximo ano e os sebos terão de baixar o preço dos exemplares usados.

  9. Que bom saber disso, Arlindo, vou estar na fila de autógrafos!

  10. Faço coro aos que torcem por uma reedição desse livro (2)!

  11. “A Ilusão Especular” é como um livro de cabeceira. Não vendo por nada… e o meu tem o autógrafo do Arlindo Machado…

  12. Cinco anos se passaram deste maravilhoso texto, mas gostaria de saber sobre a reedição do livro: como ficou mesmo?

  13. Atualizando, agora em junho de 2015, o livro acaba de ser reeditado pela Editora Gustavo Gili Brasil. Traz um modificação no subtítulo, A Ilusão Especular, Uma teoria da Fotografia. Segundo o próprio autor, era para ter sido assim desde o início, mas por motivos editorais ele foi alterado. No mais algumas pequenas modificações, como o enxugamento de certas redundâncias, livrando o tanto quanto possível da convenções acadêmicas…(palavras do autor) Viva!

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