CONVERSAS
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Poemas da cidade

Esses fragmentos de conversas não contam uma história, não discutem um assunto, não descrevem uma situação. Quase não fazem sentido. São quase como muitas fotografias, recortes situações cuja sequência só podem ser imaginadas. A mim, essas conversas seduzem mais pelo que falta, e que só posso imaginar, do que pelo que dizem. Também me supreendem os extremos: às vezes parece que meia-palavra basta pra se fazer entender. Às vezes, parece que a comunicação é impossível.

Um casal de meia idade:
Ele: eu curto muito você.
Ela: mas não tem tesão.
Dois amigos no cinema:
Um: Se ela não vier, eu não crio expectativas.
Outro: Ela é bonita pelo menos?
Um: E eu sou?

Duas prostitutas na rua:
Uma: Eu tô na rua.
Outra: Tá na rua? Tá ganhando mais na rua?
Dois homens num bar:
Um: Sabe aquilo lá que você falou? Eu já analisei.
Um pai e um filho:
Pai: você tá bem, tá feliz?
Filho: eu vou na areia, tá?
Um condômino e o síndico:
Condômino: e aí, muito trabalho?
Síndico: não, tô só lavando a mão.

Uma menina e o monitor de uma exposição:
Menina: Tio, o que você sente vendo essa obra? Eu tenho que colocar no trabalho da escola.
Monitor: Tem que ser necessariamente essa obra?

Na seção de infantis e uma livraria:
Atendente: Ele gosta de historinhas?
Mulher: Ele gostava, mas o pai dele não estimula, não faz nada.

 
 
Ronaldo Entler sobre o site