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O CAOS E A TEIA

Ronaldo Entler, 1997

 

A quantidade e a diversidade de informações disponibilizadas na Internet e, ainda, sua rápida e contínua expansão sem um gerenciamento centralizado, transformam essa rede num ambiente caótico. Com frequência somos levados a páginas que estão muito distantes daquilo que buscávamos.

Não é difícil imaginar que, sem querer, um cientista que estude "comportamento humano" possa cair num site erótico. Da mesma forma, um adolescente que busca imagens pornográficas pode tropeçar com frequência em frustrantes discussões sobre sexualidade. A complexidade da rede e desvios como esses motivam o debate sobre a necessidade de organizar as informações disponíveis, tornando o percurso de pesquisa  mais eficiente.

Mas há ainda uma outra maneira de pensar esse caos: não como um obstáculo a ser transposto, mas como uma forma de acesso à informação que pode apontar caminhos imprevisíveis, mas capazes de responder satisfatoriamente às necessidades do usuário.

É interessante pensarmos numa contaminação positiva entre informações que são lançadas para fins absolutamente distintos: talvez seja útil ao cientista conhecer a maneira informal com que seu tema de pesquisa é às vezes tratado. O adolescente também pode descobrir algo de excitante nas imagens e no palavreado acadêmico que descreve aquilo que ele costuma ver de modo   vulgar (e é claro, não é de se descartar a possibilidade de que o cientista aproveite o desvio como uma pausa para se excitar e o adolescente, para aprender alguma coisa). Em todo caso, por mais banal que seja, esse exemplo pretende sugerir que tais desvios podem ampliar o repertório de um usuário, trazendo informações que ele jamais acessaria voluntariamente.

Esse caos informacional é certamente um agente transformador, mas não destruidor do conhecimento. Indo um pouco adiante, podemos conceber a possibilidade de ele estar em absoluta sintonia com uma nova forma de conhecimento já configurada, que não apenas é capaz de lidar com tal complexidade, mas é também, ele próprio, gerador dessa complexidade.

Para começar, vale a pena uma análise mais concreta do fenômeno de acesso à informação na Internet (mais particularmente na WWW, que é hoje o ambiente que revela um pontencial maior). Observamos três formas de percurso:

Percurso linear ou determinista: o usuário tem uma pergunta muito bem definida para a qual existe apenas uma resposta. Por exemplo, se se quer saber qual é a população da China, é bastante provável que essa informação esteja disponível na Internet. Neste caso, a Internet estaria sendo tão eficiente quanto uma enciclopédia convencional. Talvez, mais eficiente, se considerarmos que suas informações estão sendo constantemente atualizadas. Talvez, menos eficiente, pois será inevitável passar por uma série de outros dados, antes de encontrar aquele que interessa. É tomando prioritariamente situações deste tipo como referência que se questiona a eficiência da Internet, e se discute a necessidade de organizá-la. Mas suas possibilidades não se esgotam nesse tipo de pesquisa.

Percurso heurístico ou caótico: o usuário tem uma pergunta, mas ainda não formulada de maneira tão fechada, textual e linear. Ele tem, mais propriamente falando, uma questão que vai sendo reformulada ao mesmo tempo em que constrói o seu percurso pela rede. Ou seja, suas perguntas permanecem sensíveis às respostas que encontra. 

É um tanto difícil dizer aqui qual seria o trajeto mais eficiente, pois cada busca, ainda que parta de uma mesma questão, acaba sempre por constituir um conjunto original de problemas e de soluções. Ou seja, não há aqui distâncias mais longas ou mais curtas pois o desvio não constitui um prejuízo concreto: eventualmente, ele pode levar a soluções que não poderiam ser vislumbradas pelo conhecimento prévio do pesquisador; caso contrário, será sempre possível retornar a pontos anteriores sem qualquer dificuldade.

Esta forma particular de percorrer a rede se identifica com o que, no jargão dos usuários da Internet, se chama de navegar. É como estar num oceano, onde as estradas não estão previamente desenhadas. As possibilidades de desvio são inerentes ao projeto, mas isso não representa a inexistência de um objetivo. Também não se trata de estar à deriva: a viagem está sendo guiada por instrumentos de navegação (as ferramentas do browser, os links, os sites de pesquisa etc.), mas o trajeto se constrói numa tensão de forças interiores e exteriores à questão inicial. A particularidade do acesso caótico, com relação ao anterior, é que ele sugere que não se negue e não se desperdice a complexidade daquilo que a rede está oferecendo. Ou seja, sugere que o pesquisador se coloque sensível aos eventuais novos caminhos que lhe serão apontados no próprio trajeto.

O conceito de navegação tem aqui um sentido clássico: a navegação de um tempo em que o globo não estava completamente mapeado, em que as viagens mantinham um caráter exploratório, ainda que vislumbrassem um ponto de chegada mais ou menos específico (lembremos da viagem de Ulisses que se submete às forças dos deuses e da natureza, mas também às forças de suas próprias paixões e dúvidas). A idéia de navegação, com suas possibilidades caóticas, já está contida no significado original do termo cibernética, que aparece em Platão como "a arte de guiar navios", tomado como uma metáfora da "arte de governar um estado"; ou seja, duas situações que obrigam a lidar com fenômenos complexos e imprevisíveis.

Esta forma percurso é aquela que parece conseguir manter o caráter de pesquisa, sem ter de amenizar a complexidade da Internet. Exatamente por isso, parece ser a que revela um maior potencial dentro desse ambiente.

Percurso lúdico ou aleatório: o usuário percorre a rede, sem qualquer pergunta ou questão previamente definidas. Ele segue seu trajeto motivado pelo simples prazer da diversidade: ele passa por sites de pesquisa, de divulgação comercial de produtos, informativos, eróticos, copia programas para seu computador etc. É aquilo que no jargão da Internet se define como surfar, um seguir as ondas, as sugestões trazidas por amigos, revistas especializadas, sites de "hot-links" ou "what's cool", além dos outros links que se sucedem em cada nova página acessada. O objetivo é antes de tudo percorrer, muito mais do que chegar a qualquer ponto final. 

Mesmo que esse processo não se caracterize claramente como uma pesquisa - já que não há uma busca - o acaso pode ser um método eficiente para a formação de um repertório de soluções virtuais para um problema imaginado, mas ainda não detectado, e que pode se configurar de forma muito diversificada. Um exemplo disso é dado pela biologia: é o acaso nas mutações gênicas que permite produzir organismos diversificados o suficiente, para permitir a adaptação de indivíduos das gerações futuras às eventuais transformações do meio, quaisquer que sejam elas. São como respostas potenciais à problemas ainda não formulados.

Naquilo que eventualmente pode interessar ao usuário que se define a priori como um pesquisador, o percurso aleatório, se não é uma forma eficiente de encontrar respostas, pode ser uma interessante forma de definir e motivar perguntas.

Dessa forma, não é difícil imaginar a passagem de um tipo de percurso a outro: alguém percorrendo aleatoriamente a rede (percurso lúdico) pode encontrar certas motivações mais ou menos específicas, que se definem como esboço de uma questão que se torna um referencial para seu trajeto (percurso caótico). Prosseguindo, sua questão vai se lapidando até se transformar numa pergunta clara e textual, conduzindo-o à busca de um dado específico que lhe sirva de resposta (percurso linear). E vice-versa: enquanto procura esse dado, pode ficar tentado a submeter-se a novos desvios. Essa flexibilidade - as mudanças de comportamento de um usuário - é, ela mesma, mais um dos efeitos da complexidade da Internet.

RUPTURAS: NOVAS QUALIDADES DA INFORMAÇÃO


A diversidade de linguagens, temas e ações sobre a informação que a Internet concentra estimula a ruptura de algumas fronteiras e hierarquias estabelecidas pelos sistemas tradicionais de comunicação, de produção intelectual e artística, e potencializa algumas características que são bastante valorizadas nos produtos da cultura contemporânea.

Podemos pensar, então, nas rupturas que se dão no âmbito de:

Gêneros de informação: a Internet, tendo o computador como dispositivo de acesso, se beneficia da flexibilidade da informação digital, que pode ser atualizada em textos, imagens e sons, apropriando-se de uma infinidade de códigos. Tem-se assim a tendência aos produtos multimediáticos, em que as categorias que diferenciam os tipos de informação já não são mais observadas. Não há necessariamente uma linguagem prioritária e outras subordinadas a ela, como se observa nos meios tradicionais: texto ilustrado, imagem com música ou com legenda. A multimídia pressupõe um espaço que contempla todos os tipos de informação que podem ser operados pelas interfaces do computador. Assim, compartimentos tradicionais como a biblioteca, a videoteca, a discoteca e a pinacoteca não são, nem eles próprios e nem seus métodos de organização da informação, adequados a esse novo universo.

Campos da informação: as formas mais usuais de dividir grupos de informações, por temas ou disciplinas, perdem seu sentido na rede. A possibilidade de poder saltar de um ponto a outro qualquer, sem escalas, transforma a rede numa grande infoteca sem divisões sedimentadas. Isso estimula o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares. E este é o grande potencial dos eventuais desvios: o pesquisador pode se dar conta de que sua questão particular tangencia temas ou disciplinas que estão fora de seu interesse específico, mas que podem lhe sugerir um modo útil de lidar com seu problema. A interlocução de diferentes disciplinas sobre um mesmo tema nos estimula ainda a estabelecer conexões mais profundas, compreendendo os paradigmas que compartilham.

Agentes da informação: quando a interatividade é usada em todo seu potencial, atenua-se a distância entre emissor-receptor. Passamos a ter co-autores e co-leitores. Obviamente, as possibilidades hipertextuais na Internet têm uma série de limitações circunstanciais, sobretudo em função da baixa velociadade na transmissão de dados. Talvez mais do que na WWW, temos nos recursos de e-mail um modelo interessante, pois neles a interatividade não depende de atributos especiais das informações. Os softwares já trazem consigo além das ferramentas para leitura, outras que permitem a reprodução, a edição e a retransmissão de toda informação recebida (mas é verdade que esse potencial se limita ao texto). De toda forma, levado adiante esse potencial, o processo de difusão também se confunde com o processo de criação, pois acessar uma obra significa, nesse caso, poder transformá-la. Se havíamos dito que o usuário é sensível às informações que acessa, aceitando desvios em seus projetos e motivações iniciais, a interatividade sugere que a informação também permaneça sensível ao seu usuário.

A complexidade certamente age sobre o conhecimento, como um obstáculo, se quisermos sair em defesa de suas formas já estabelecidas; mas também como um novo impulso, se aceitarmos as transformações que naturalmente nele se operam. O caos, situação que se define a partir dessa complexidade e que tem se demonstrado uma característica genética da rede, não representa algo a ser superado, mas assimilado como um fenômeno maior, que se verifica tanto na natureza que esse conhecimento intenta representar, quanto nas formas de organizar tais representações.

Concretamente, esse impulso se revela no convite ao multimediatismo, à interdisciplinaridade e à interatividade, que são elementos marcantes da cultura contemporânea, ao mesmo tempo, produtos e produtores da complexidade. É preciso evitar o deslumbramento e a precipitação de considerar esses elementos, em si, como um ganho de qualidade para a informação. Mas não podemos negar que muitas das inquietações que surgem no interior da arte, da comunicação e da ciência têm levado com frequência a essas soluções. Trata-se, portanto, de perceber que, se o caos fere os critérios estabelecidos para a organização e utilização da informação, é exatamente porque ele responde a um novo conhecimento que reivindica a renovação desses critérios.

 

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