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ACASO x EFICIÊNCIA

Ronaldo Entler, 1997

 

Seria possível obter um poema simplesmente sorteando palavras de um dicionário? Uma boa resposta parece ser: isso é um tanto improvável. Mas nessa afirmação já está contida a idéia de que há um outro tanto, por menor que seja, de probabilidade de obtermos nosso poema. Uma chance em mil, por exemplo, representa algo improvável, mas aí mesmo já está informada a proporção em que se espera encontrar um tal evento num acúmulo de tentativas. Ou seja, algo improvável é também algo possível.

O filósofo francês Clément Rosset, sugere tal possibilidade, lembrando que partículas que se movimentam e se chocam ao acaso, vez ou outra, resultam em agrupamentos que acabam por corresponder a uma estrutura já dotada de sentido: "segundo o velho argumento epicurista, um número infinito de lançamentos das letras do alfabeto grego não poderia deixar de produzir uma vez, por acaso, o texto integral da Ilíada e da Odisséia" 1.

Mas a idéia de eficiência tem um valor bastante discutível dentro do campo da arte. Apesar de existir uma arte-utilitária (objetos que cumprem uma outra função, além da estética), a funcionalidade não é uma necessidade própria à arte. O que caracteriza a função estética de uma obra, segundo Luigi Pareyson, é o fato de que ela assume um compromisso com regras que lhe são interiores, isto é, ela pode ser ou não eficiente, mas sempre segundo critérios que são construídos juntamente com a obra. Como ele diz, a arte "é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer" 2. Assim, podemos pensar não apenas na probabilidade de, ao acaso, chegar àquilo que nos pareça um poema, mas de reinventar através do acaso a compreensão do que pode ser um poema.

Vejamos a receita, trazida por Tristan Tzara, em 1920, "para fazer um poema dadaista":

"Pegue um jornal. Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com cuidado algumas palavras que formam o artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro mantendo a ordem em que eles saíram do saco.
Copie conscienciosamente.
O poema se parecerá com você.
E aí está você, um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade encantadora,
ainda que incompreendido pelas pessoas vulgares".

Ainda que esse texto esteja carregado de ironia, o acaso parece revelar aqui uma fórmula eficiente dentro de uma proposta poética marcada pelo ideal de subversão.

O estranhamento que temos diante de uma tarefa com um grau elevado de improbabilidade de êxito é o mesmo que foi gerado por Darwin em sua teoria evolutiva. Como é possível que o processo evolutivo tenha produzido seres tão complexos como os humanos, partindo dessas formas de vida muito simples, e tendo como fonte de diversificação as mutações gênicas casuais? Devemos considerar que estamos tratando de muitos milhões de anos e, portanto, de um número de eventos capaz de satisfazer às probabilidades mais ínfimas que podemos imaginar 3. Apesar de essa existência acidental não corresponder a uma história muito nobre, sobretudo para o homem, o acaso parece ter sido uma estratégia necessária ao estabelecimento de um processo evolutivo. Acredita-se que o código genético não possa reconhecer as transformações do meio para corrigir e adaptar uma determinada função do organismo às novas condições externas. Assim, a melhor maneira de garantir a perpetuação da vida é, vez ou outra, promover transformações atirando para todos os lados. Não há mecanismo mais adequado do que o sorteio para produzir uma diversidade tão ampla que dê conta de todas as mudanças do meio, qualquer que seja ela.

Outro exemplo - ainda no campo da biologia - é trazido por Jacques Monod, no seu consagrado livro Acaso e Necessidade. Ele fala da capacidade do organismo de produzir anticorpos específicos para defender-se de substâncias estranhas e nocivas a ele (os antígenes).

"Durante muito tempo, pois, supomos que a fonte de informação para a síntese da estrutura associativa específica do anticorpo era o próprio antígene. Ora, hoje está estabelecido que a estrutura do anticorpo nada deve ao antígene: no interior do organismo, células especializadas produzidas em grande número, possuem a propriedade - única - de 'jogar na roleta' sobre uma parte bem definida dos segmentos genéticos que determinam a estrutura dos anticorpos.

(...) É notável encontrar na base de um dos fenômenos de adaptação molecular mais excelentemente precisos que se conhece, uma fonte ao acaso. Mas é claro (a posteriori) que somente tal fonte poderia ser bastante rica para oferecer ao organismo meios de defesa de algum modo em todas as direções'" 4.

O físico David Ruelle, no livro Acaso e Caos, qualifica bem as situações em que o aleatório pode ser uma estratégia recomendável: "Evidentemente, é bom reagir de maneira previsível quando cooperamos com alguém. Mas, numa situação competitiva, um comportamento aleatório e imprevisível pode ser a melhor estratégia".

E, como exemplo, uma situação hipotética de guerra:

"Você está num pequeno avião que sobrevoa um campo de batalha, e lança bombas tentando me atingir. Por meu lado, eu me escondo num abrigo, e naturalmente tento escolher o melhor abrigo acessível para me ocultar. Mas, naturalmente, você vai escolher o melhor abrigo para bombardeá-lo. (...) Se somos ambos muito espertos, utilizaremos estratégias probabilistas. De minha parte, calcularei para as probabilidades de me esconder em diversos abrigos os valores que me oferecem globalmente as maiores chances de sobreviver. Em seguida, jogarei cara ou coroa, ou então utilizarei uma tábua de números aleatórios, para decidir onde me esconderei. Você, por sua vez, também vai calcular certas probabilidades e vai utilizar uma fonte de números aleatórios para decidir onde lançar suas bombas com maior probabilidade de me atingir" 5.

A produção de anticorpos ocorre de forma semelhante: ela usa o acaso para atacar um inimigo configurado de forma desconhecida. O processo evolutivo também não deixa de caracterizar uma situação de conflito entre a espécie e o meio. A mutação gênica casual é uma estratégia consolidada dentro da própria evolução, para responder às imprevisíveis transformações do meio.

Parece óbvio que, quando determinamos uma meta, a maneira mais segura de atingi-la é ter o máximo de controle sobre o processo. Se me proponho a fazer um bolo, devo saber exatamente a quantidade de cada ingrediente, a forma de misturá-los, o tempo e a temperatura de cozimento e, para evitar equívocos, recorremos a uma receita. Mas quando a meta não está previamente configurada de maneira tão rígida, quando nosso alvo se move no escuro, quando tentamos nos antecipar a um problema potencial, o acaso se torna um critério que merece nossa atenção. Para a arte, assim como para qualquer gênese, o acaso encontra sua utilidade como uma das mais ricas fontes de diversidade e de renovação que conhecemos. Não há criação verdadeira sem desvio.

No berço de nossa cultura, encontramos a sugestão de que situações ordenadas podem ser oferecidas pelo caos: "no princípio era o Caos", narra o poeta grego Hesíodo (século VIII a.C.) em sua Teogonia, o texto sobre a genealogia dos deuses e sobre a criação de todo o universo. Junito Brandão define esse Caos como "vazio primordial, vale profundo, espaço incomensurável (...), matéria eterna, informe, rudimentar, mas dotada de energia prolífica" 6. O Caos cumpre aqui uma função dialética: ele precede a criação, ele é o estado original de desordem, mas é também o criador, a divindade que deu origem às gerações subsequentes de deuses que orientaram o mundo.

 
Notas:

1. Clément Rosset. Lógica do Pior. Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989. p.122. [voltar]
2. Luigi Pareyson. Os problemas da estética. São Paulo, Martins Fontes, 1989. p. 32. [voltar]
3. Acredita-se que a vida tenha surgido há cerca de 3,5 bilhões de anos, as primeiras formas animais, há 600 milhões de anos, e nós (o homo sapiens sapiens), há apenas 120 mil anos. E para ser mais preciso, vale considerar que o acaso é o mecanismo fundamental das mutações e não do processo evolutivo em si. A mutação, para gerar uma nova espécie, antes, deverá manter a coerência interna do organismo, não gerar um indivíduo estéril, e garantir sua adaptação ao meio. [voltar]
4. Jacques Monod. O acaso e a necessidade. Petrópolis, Vozes, 1972. p.143. [voltar]
5. David Ruelle. Acaso e Caos. São Paulo, Editora da Unesp, 1993. p. 51 e 52. [voltar]
6. Junito de Souza Brandão. Mitologia Grega v.I. Petrópolis, Vozes, 1991. p.153. [voltar]

 

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