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ACASO E COTIDIANO

Ronaldo Entler, 1997

 

Qualquer fenômeno casual que nos atinja significativamente nos parece um dado necessário dentro de nossa história. Quantas não são as coisas (nossos amigos, nossas paixões, nossas oportunidades de trabalho) que surgem a partir de encontros imprevisíveis? Aquilo que somos pode estar tão fortemente marcado por esse fenômeno que não podemos imaginá-lo como uma causa alheia: ele faz parte daquilo que parece ter sido nosso projeto de existência. Olhando para o passado, aquilo que foi um acaso é facilmente visto como um dado necessário. Mas pensando no que está por vir, por mais que acreditemos na eficiência de um projeto, nossas vidas sempre permanecem sensíveis, a ponto de acontecimentos dos mais banais nos colocarem com frequência em caminhos opostos àqueles que estavam previstos.

Trata-se de uma hipersensibilidade semelhante àquela que é descrita pela Teoria do Caos. Um cientista que queira estudar o movimento de um corpo e calcular sua posição num dado instante, deve eleger um conjunto de forças que provavelmente agirão significativamente sobre ele. Ele pode supor que pequenas interferências geram apenas pequenos desvios e que, portanto, possam ser desconsideradas em seu cálculo. Mas os cientistas do Caos observam que esse pequeno desvio pode ser suficiente para expor o corpo a uma sucessão de outras interferências não consideradas inicialmente, levando-o a uma posição final muito diferente daquela que foi prevista. Um exemplo: com frequência somos surpreendidos por uma falha na previsão do tempo. Isso decorre da hipersensibilidade dos fenômenos climáticos, que se alteram rápido e radicalmente a partir de interferências sutis que não poderiam ser calculadas previamente pelo meteorologista. É o que foi chamado de efeito borboleta, que sugere que o deslocamento de ar provocado por suas asas poderia ser decisivo para a ocorrência de fenômenos da proporção de um tornado 1.

Uma ilustração das transformações que um fato banal pode desencadear na vida das pessoas está nos filmes Smoking e No Smoking (1994) de Alain Resnais. Uma mesma passagem é contada duas vezes: na primeira, uma personagem decide fumar um cigarro, na segunda, não. Em função disso, desdobram-se duas histórias completamente diferentes uma da outra. E ainda, dentro de cada história, Resnais retoma várias vezes sua trama a partir de um momento passado, mostrando o que aconteceria se algumas pequenas coisas ocorressem de modo diferente.

Independentemente de explicações que possamos dar ao acaso, a observação de sua ocorrência já indica o valor subjetivo de um fenômeno. Saímos de casa e passamos por centenas de pessoa durante o dia, cada uma estando ali por motivos independentes. Ou seja, são encontros casuais que sequer chegam a existir em nossa percepção. Mas quando encontramos um amigo, quando esse cruzamento interfere em nossos planos, quando ele toca nossos afetos, aí sim o acaso é denominado. Ou seja, cotidianamente, a observação do acaso já indica que o fenômeno em questão está dotado de um significado para o sujeito. Outro exemplo: se disparo uma arma de olhos vendados, posso dizer que a bala segue uma trajetória ao acaso, qualquer que seja ela. Mas provavelmente essa denominação ocorrerá apenas se a bala atingir alguma coisa que consideremos um alvo. O acaso existe na medida em que a seletividade de nossa percepção permite enxergá-lo.

Mas o acaso é uma regra ou uma exceção?

Pensar o acaso é necessariamente penetrar num ambiente nebuloso, onde muito facilmente tropeçaremos nas crenças e convicções de nossos interlocutores, e nas nossas próprias. Afinal, aquilo que entendemos como acaso atua sobre o mesmo palco da paranormalidade, das superstições, das providências de inteligências superiores: algo inesperado ocorre por acaso ou porque Deus o quis? Quantas vezes não ouvimos dizer: nada é por acaso? Não há como discutir esse tema sem obter eco em questões um tanto caras à nossa subjetividade. Aceitar ou não o acaso não depende apenas da observação de certos comportamentos objetivos do fenômeno, mas de pressupostos que já estão incluídos ou excluídos numa concepção metafísica mais ampla, aceita pelo observador.

Como saber se as conexões entre os fenômenos não existem, se são simplesmente desconhecidas, ou se são inconscientes? No que diz respeito aos fenômenos psíquicos, Freud estabeleceu uma nítida recusa à idéia de acaso. Até mesmo os lapsos mais sutis e aparentemente insignificantes  têm seu lugar dentro de uma cadeia de causas inconscientes. Jung, em sua psicologia analítica, vai um pouco além, buscando estabelecer conexões que são exteriores ao indivíduo. Segundo ele, existem representações comuns a todos os seres humanos, de qualquer cultura e qualquer época, que compõem um inconsciente coletivo. Para esse autor não há sentido em pensar ações humanas como fatos isolados e independentes, pois há um solo simbólico que os une. Mesmo os fenômenos físicos participam dessa cadeia de significados, pois segundo ele "o mesmo ser se exprime tanto no estado psíquico como no estado físico". É o que Jung chama de sincronicidade, um conceito que se sobrepõe à idéia de acaso, pois pretende apontar um elo entre fenômenos que estariam aparentemente isolados. Dentro desta concepção, não há fenômenos verdadeiramente isolados.

Mas podemos pensar o inverso. O filósofo Clément Rosset, numa obra intrigante 2, sugere que tudo aquilo que achamos que existe é uma circunstância passageira dentro de um universo regido pelo acaso (melhor seria dizer simplesmente um universo não-regido). Segundo ele, vez ou outra, o choque aleatório entre as partículas pode produzir algumas circunstâncias, como as que chamamos de homem, de natureza, e todos os objetos que consideramos existentes. Tais circunstâncias são efêmeras dentro do contexto do próprio universo, mas do ponto de vista do homem, e dentro de um tempo humano, elas parecem duradouras e repletas de leis de comportamento. Ou seja, a idéia de existência seria uma convenção que designaria a aparente estabilidade configurada acidentalmente dentro do acaso original. Em outras palavras, tudo seria por acaso. Não é à toa que Rosset define seu pensamento como uma filosofia trágica, e que seu livro leva o nome de A lógica do pior. Não se trata mais de pensar o acaso dentro da natureza, mas de conceber a própria natureza como uma estabilidade acidental, uma exceção dentro de um universo composto originalmente por elementos isolados e independentes.

Apesar de seu sentido trágico, o acaso foi para a filosofia clássica uma maneira de estabelecer um princípio de liberdade para o homem diante das determinações da natureza. Para os atomistas, o universo seria composto por partículas que, chocando-se, comporiam todos os corpos. Para alguns deles, esses átomos teriam sempre comportamentos constantes e movimentos retilíneos, rigorosamente determinados pelo seu peso. Para outros, particularmente para Lucrécio, haveria a possibilidade de um desvio espontâneo e aleatório - chamado de clinâmen, uma inclinação - do qual decorreriam novas possibilidades combinatórias das partículas e, dentro de uma conotação moral dessa filosofia, uma margem de indeterminação sobre a vida do homem que garantia sua liberdade.

Obviamente, definimos nossos projetos a partir das coisas que estão sob nosso controle ou, pelo menos, daquelas cujo comportamento pode ser compreendido e previsto. Nossa ordem emocional estaria abalada se considerássemos o tempo todo a possibilidade de uma desordem no mundo exterior. Ninguém sai de casa considerando a possibilidade de ocorrência de fenômenos menos prováveis: uma bala perdida, um carro desgovernado, uma pane no sistema de controle de fluxo ferroviário, um raio em cima de sua cabeça. Conjuntos de conhecimentos e regras são operados para evitar essas situações, e contamos com eles em nossos planos. Mas é importante pensar que os desvios não têm um objetivo maléfico em sua essência. Um atropelamento é um acidente, tanto quanto o fato de alguém, em seu caminho rotineiro, ter um dia esbarrado naquela que se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua vida. A menos que sejamos exageradamente pessimistas ou otimistas, quando saímos de casa, não contamos com uma coisa nem outra. 

O acaso, não se submetendo às regras, é avesso a qualquer objetivo construtivo ou destrutivo. Ou seja, em princípio, ele não é nem bom e nem ruim. Mas ele é, pelo menos, uma fonte de diversidade e de renovação. Ele garante a particularidade da história de cada homem e, assim, sua individualidade e sua identidade. Isso pode significar dor ou prazer, mas em qualquer um dos casos, significa a possibilidade de ter experiências diversificadas. Seria uma benção ou uma desgraça se pudéssemos escrever antecipadamente nossa própria biografia? É difícil saber mas, seguramente, seria monótono.

 




Notas:

1. Edward Lorenz remete a essa idéia no título de uma conferência realizada em 1979: "Predictability: Does the flap of a butterfly's wings in Brazil set off a tornado in Texas?". Cf. James Gleick. Caos. A formação de uma nova ciência. Rio de Janeiro, Campus, 1990. p. 29. [voltar]

2. Lógica do Pior. Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989. [voltar]

 

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