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ACASO E PSICANÁLISE

Maria Lucia Homem, 1997

 

Pensar o acaso a partir de um referencial psicanalítico implica levantar certos pontos que questionam imediatamente uma lógica atributiva/causal do inconsciente e uma lógica outra, para-consistente talvez, que nortearia o que chamamos de acaso. Perguntamo-nos, por exemplo: até que ponto decidimos coisas de nossas vidas, fazemos escolhas e operamos sobre o mundo? Ou, de fato, somos levados por algo de outra ordem - o acaso, talvez - que decide por nós, que põe e dispõe as inúmeras peças de nossos tabuleiros ao seu bel prazer?  

O homem sempre se debateu com a questão dos limites de seu poder e sua vontade sobre um desígnio Outro, estrangeiro, ou mesmo um não-desígnio. Oscilando entre visões que estipulam poderes de atuação que beiram o divino e outras que situam a consciência e a razão como os parâmetros das atitudes humanas, ele tem tentado conhecer o quinhão que lhe cabe decidir em seu parco destino.  

O fascínio pela psicanálise pode nos levar a ver o inconsciente como a diretriz maior de praticamente todos os atos e falas humanos. Daí podermos pensar que, para a psicanálise, "o acaso não existe". Como se houvesse um desejo inconsciente norteador que pudesse explicar tudo - afinal, não é verdade que "Freud explica"? 

Uma outra forma de dizer essa pequena frase é assim: o inconsciente explica. O inconsciente nos leva a agir desta ou daquela maneira, mas sempre na direção do objeto que no momento embasa e serve de isca para o desejo sempre em movimento do sujeito. Desejo aqui como um conceito psicanalítico central no desenrolar da pulsão de vida e daquilo que esta carrega em si de criação. 

Assim, a partir de uma certa posição epistemológica, podemos dizer, ou melhor, interpretar, as produções humanas sempre na via do desejo inconsciente e não do "mero" acaso. Compactuar com o acaso, nesse sentido, instauraria a posição alienante básica de um sujeito sem desejo. Assim, por exemplo, tal sujeito não adota tal estilo de falar ou se vestir "por acaso": na verdade, segue normas precisas e bem delineadas - e na maioria das vezes sem mesmo se dar conta disso - ditadas por seus padrões inconscientes de identificação e idealização. Da mesma forma, ele não se apaixona por determinada pessoa "sem querer": o objeto da paixão, assim como o de qualquer pulsão, é cuidadosa e ardilosamente situado pelo sujeito (inconscientemente, eis o paradoxo do qual jamais escaparemos) nas tramas de sua história, em correspondência com a construção de seu desejo, em suas várias caras e personagens. 

Enfim, desse ponto de vista, poderíamos dizer que para a psicanálise não há acaso. O ser é levado pelo seu desejo inconsciente ao sabor das marés, e de forma mais ou menos alienada, de acordo com o grau de maturidade ou de "análise" que ele tenha atravessado na vida. 

Porém, é possível problematizarmos o próprio conceito de acaso e introduzirmos uma questão: afinal, que acaso é esse? Quais seus limites? Quais seus estatutos? 

Aquilo que se denomina acaso está imerso numa rede semântica muito ampla. Proponho, então, duas "ordens" para o acaso: uma in-sujeito, outra ex-sujeito. A primeira refere-se ao ser e o coloca como ponto de partida em suas enunciações - como ao se falar do inconsciente de determinada pessoa ou a perspectiva subjetiva de se lidar com os dados a priori de uma existência. A segunda ordem situa o acaso em sua perspectiva mais genérica: não mais sob o olhar do sujeito, mas do grande objeto chamado universo, com suas infinitas redes de ações e reações, possibilidades e atualidades, internet aumentada. Tal acaso, efetivamente, não é controlado pelo sujeito ou seu desejo inconsciente, não, ele o transcende e situa-se na aura do real das coisas. Este segundo, o acaso digamos universal, pode ser chamado o "grande mal", e o primeiro, aquele com o qual cada um de nós se depara no cotidiano, o "pequeno mal". 

Dessa forma, a partir do grande acaso, isto é, de todas as possibilidades de formas de existência que se colocam para um sujeito (e que o "fazem" ter nascido em um país x, falar uma língua y, e ter sido gerado e formado em uma família z), ele opera suas escolhas, toma atitudes e transforma a realidade em seu alcance (alcance variável de sujeito a sujeito, com sua segurança e capacidade de alterar o status quo), manipulando os dados desse "pequeno acaso" que nada mais é que produto e objeto final do desejo inconsciente que busca se fazer atuante. 

Daí o subtítulo deste breve delirar ontológico: se o sujeito se deixa esmagar pelo peso do grande acaso, entrega as linhas de seu percurso ao que ele nomeia Deus, Estado ou simplesmente Acaso, numa posição de certa forma alienada e alienante de suas opções mais verdadeiramente desejantes. O que, nesse caso, equivaleria a se deixar colocar na estrada e ser levado ao sabor do vento ou das decisões alheias.  

E a psicanálise, justamente, nos desvela a possibilidade de, a partir da aceitação dos limites do grande acaso com os quais lidamos constantemente, se operar formas possíveis de escolha e atuação sobre seu destino, sabendo ‘ler’ seu inconsciente e assim podendo bancar o desejo que aí perpassa. 

Afinal, o homem não é tão impotente assim frente às peripécias do acaso, um barco sem rumo e sem vela no oceano dos aconteceres da existência, nem tão superpotente que consiga manipular todos os fatos e dados da vida a partir de seu desejar ou poder. Sempre no eterno equilíbrio, assim se mostra o sutil papel desse sujeito, que deve se deparar com as limitações de sua vontade, ao mesmo tempo que não pode eximir-se da responsabilidade de suas escolhas, que, se intensas e assumidas, espelham-se a partir das mais tortuosas vias do desejo e do inconsciente.  

 

 

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